Em entrevista polêmica, jurado Miranda diz que MPB virou "som de barzinho" e rock em música de velho

 
"A cena musical paraense é a mais instigante da música brasileira." A despeito de participar ativamente dela, como diretor musical do primeiro disco de sua maior estrela, Gaby Amarantos, e de sua mostra musical mais abrangente, o festival Terruá Pará, Carlos Eduardo Miranda, 51, tem propriedade para opinar sobre esse tema. 

Um resumo rápido dos serviços prestados pelo músico e produtor à música brasileira desde os anos de 1980 inclui a fomentação do rock gaúcho, a atuação como empresário do Sepultura, a direção artística dos selos Banguela (que revelou o Raimundos) e Excelente, a idealização da Trama Virtual e a direção musical de discos de Mundo Livre S/A, Otto, Cansei de Ser Sexy, Rappa. 

Jurado do programa "Astros", do SBT, Miranda percorreu centenas de vezes o país nos últimos anos e afirma: "O funk está tomando o lugar do hip-hop". 

De sua casa, em São Paulo, ele falou à Folha.

Folha - O que é o som do Pará?
Carlos Eduardo Miranda - O Terruá criou um dogma, unidade versus diversidade. Ele propõe que um artista olhe para o outro em busca do que têm em comum, que é a influência forte do Caribe, de merengue e do calipso, o que culminou com o tecnobrega, a guitarrada e a lambada, além do amor pelo brega. 

A cantora Gaby Amarantos é um bom resumo da cena?
Não exatamente, mas ela tem quase todos os elementos da música de lá: o eletrônico, a percussão muito forte e as guitarras caribenhas do merengue. O sucesso dela impulsionou a cena, mas a cena se sustenta porque existem muitos outros nomes, como Lia Sophia, Aluê, Felipe Cordeiro, Gang do Eletro, Pio Lobato, Dona Onete. 

Quais as outras cenas mais consistentes?
Em Curitiba tem muito artista pop. Em Goiânia e no Rio Grande do Sul há a resistência do rock. Em Cuiabá acontece muita coisa. E tem os núcleos de Rio e de São Paulo que se misturam muito, em torno de produtores em comum, como o Kassin e o Ganjaman, e de estúdios como o YB, da Vila Madalena. 

O que eles fazem pode ser chamado de nova MPB?
Acho que esta turma não se preocupa em ser MPB, samba ou rock. Simplesmente é. E se pensar em música popular, não é popular! Popular é sertanejo universitário. E funk, que é a maior cena atual. 

A MPB tradicional é o quê, hoje?
Esta virou a MPB de barzinho. Jorge Vercillo, Seu Jorge, Ana Carolina e Maria Gadú acham que estão fazendo MPB, mas essa galera é filha do barzinho, de uma música diluída, ao contrário da galera da qual estamos falando, que é mais ligada na raiz. 

É um fruto dos velhos moldes da indústria?
Pode ser. A indústria vive hoje de um elemento único, básico e primordial: tudo tem a ver com o ato da reprodução. Ou é a MPB de barzinho, um lugar em que as pessoas vão para namorar, ou a música sertaneja, baseada no "vou pegar/ vou beijar", ou estas bandas de molequinho tipo NXZero, que faz música para a molecada aprender a "fazer filhinho". 

O rock perdeu o espaço?
Tem tanta coisa boa misturada que ele virou um elemento. O rock daquela maneira mais ingênua virou música de velho. A molecada ouve indie rock, mas é um pequeno segmento. Os shows são caros, por isso o rock virou música de engenheiro, dentista. Aliás, o rock das grandes gravadoras, como o do Capital Inicial, também é "pra fazer filhinho", remete aos tempos de juventude do seu público. É para o cara que vai ao show se sentir viril e pensar: "Essa é do meu tempo!". 

E o hip-hop, que lugar ocupa neste cenário?
Não é mais representativo. Tem grandes artistas, mas o povão está na diversão. O funk está tomando o lugar do hip-hop. Música de mano hoje é funk ostentação, que está desbancando tudo. E tem o funk do Rio, que continua firme. Ambos não competem entre si, mas juntos vão acabar com o sertanejo e o hip-hop. 

O grande público ainda se ressente do filtro das gravadoras?
Claro que a gravadora era um filtro importante, mas o cara que não está vendo nada é porque não está procurando. Tem tanto artista que não há tempo para falar de todos. 

Esses artistas estão musicalmente prontos?
Eles têm discos legais, mas o padrão ainda é muito independente. É preciso que aprendam a se traduzir melhor para o grande público, e isto implica em produzir melhor sua música. Mas o momento é de maturação, o povo vai se acostumando com uma linguagem diferente e a arte vai encontrando uma linguagem mais próxima do povo. Uma hora os dois se encontram. 

Fonte: Folha de São Paulo
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