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13 de mai de 2013

Revista Veja critica o SBT por recorrer a 'conteúdo tosco e trash' para dar audiência



Na disputa acirrada com a Record pela vice-liderança na audiência, o SBT tem levado a melhor na faixa vespertina depois de transformar um patinho feio em uma verdadeira galinha dos ovos de ouro. Sem o menor pudor, a emissora de Silvio Santos ocupa as suas tardes com clássicos do trash televisivo: as já revisitadas novelas mexicanas da Televisa. A eficácia da fórmula, que inclui o melodrama caricato, o visual exagerado dos personagens e a dublagem malfeita, acaba de ser comprovada mais uma vez. A reprise de A Usurpadora, trama produzida em 1998 com a atriz Gabriela Spanic à frente, chegou ao fim nesta sexta-feira com média de seis pontos no Ibope, muitas vezes dois pontos à frente da terceira colocada. Prova de que gosto não se discute quando o assunto é conquistar audiência.

Recorrer ao conteúdo tosco para convencer o público a se sentar diante da TV não é uma fórmula bem-sucedida apenas no SBT, embora Silvio Santos conheça como ninguém a arte de fazer muito com pouco. O canal exibe há quase trinta anos o humorístico Chaves, feito também no México da maneira mais simples – para não dizer simplória. E garante quase diariamente o segundo lugar no Ibope graças ao Programa do Ratinho, entidade do trash na televisão brasileira por seus testes sensacionalistas de DNA. A rival Band viu sua média geral de audiência subir um ponto depois de abrigar o Pânico, ex-RedeTV!, que extrapola o trash e resvala no mau gosto.

O trash é pop – Por trás dessa inusitada relação entre boa audiência e estética capenga estão dois tipos de comportamento. O primeiro é o do público que realmente gosta do que é tosco; o segundo é o dos espectadores que assistem a esses programas para fazer graça com eles. E quem ri de algo dessa forma sempre se coloca um degrau acima do objeto da piada. “Alardear o gosto pelo trash é um modo de se afirmar. Quem faz isso diz aos outros que está confortável com a sua bagagem cultural e não teme que seu gosto seja posto em xeque”, diz a pesquisadora Mayka Castellano, doutoranda em comunicação e cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora da tese de mestrado “É bom porque é ruim - Considerações sobre produção e consumo de cultura trash no Brasil”.

A ideia é corroborada por Clemara Bidarra, professora de Crítica da TV no curso de pós-graduação em Produção Executiva e Gestão da Televisão da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado). “Gostar do trash é uma maneira de se diferenciar”, diz ela. Não basta, portanto, seguir a programação trash na TV, é necessário mostrar a todos que você a acompanha. É aí que entram as redes sociais, onde a veneração às produções toscas e exageradas ganha novos contornos.

Segundo a plataforma TV Square, criada para reunir comentários sobre programas de TV nas mídias sociais, as exibições dos capítulos de A Usurpadora geraram 86,5 posts por minuto no Twitter, Facebook e no próprio site da TV Square na semana entre os dias 1º e 8 de maio. Nesse período, o programa ficou em quarto lugar entre os mais comentados, atrás de Salve Jorge (97,8 mensagens por minuto), Fantástico (97) e Rosalinda (96,9), outra representante do trash mexicano do SBT. No ranking que reúne as novelas mais comentadas ao longo do dia, não considerando a velocidade da publicação dos comentários, A Usurpadora e Rosalinda são a segunda e a terceira colocadas, atrás apenas de Salve Jorge, da Globo. Que não deixa de ser trash.

Tosco lucrativo – A cúpula do SBT sabe que a chamada segunda tela é sua aliada. Não à toa, as novelas da Televisa são exibidas entre as 13h e 17h, período dominado pela audiência jovem, de 13 a 21 anos, mesmo público-alvo das plataformas de segunda tela. “Queríamos aumentar a audiência da faixa-horária e, antes de programar a reexibição de A Usurpadora, bolamos também estratégias de marketing, como a vinda da atriz Gabriela Spanic ao Brasil”, diz Murilo Fraga, diretor de planejamento de programação do SBT. Outra razão para a emissora ocupar sua faixa vespertina com novelas mexicanas é o conteúdo leve dessas produções, que livram o canal de dores de cabeça com a classificação indicativa.

A estratégia de programação, se é passível de críticas do ponto de vista estético, merece aplausos no quesito negócios. O SBT tem contrato com a Televisa até 2015, o que lhe dá o direito de exibir suas produções, sem custo adicional, por mais dois anos. Reexibir, portanto, representa investimento quase zero e retorno garantido. E Silvio Santos tem sugado até a última gota dessa fonte. Atualmente, o canal exibe três produções da Televisa ao mesmo tempo – Cuidado com o AnjoRosalinda Rubi; sem falar em Carrossel e Chiquititas, novelas infanto-juvenis que ganharam versões originais pelas mãos de Iris Abravanel. Também está prevista, porém sem data de estreia, a exibição de Soy Tu Dueña, trama protagonizada por Gabriela Spanic e produzida em 2010.

Além disso, Silvio Santos faz dinheiro – e muito dinheiro – com o licenciamento de marcas. Estima-se que Carrossel já tenha rendido mais de 100 milhões de reais em venda de figurinhas, CDs e cadernos, entre outros.

Não é difícil entender o que se passa na cabeça dos executivos de TV. Resta saber o que passará pela mente dos que consomem com voracidade esse tipo de programação. Para a professora de Crítica da TV Clemara, da Faap, a diversão de atribuir valor cultural ao trash esconde uma armadilha. “Uma geração de jovens está sendo exposta diariamente a injeções de acefalia.” Em doses cavalares, pode mesmo ser perigoso para o cérebro. Mas não deixa de ser divertido. E está na moda.

Fonte: Revista Veja

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